Padre assume paternidade e gera polêmica em Portugal

Em agosto deste ano, o português Giselo Andrade viveu um dos momentos mais importantes de sua vida: o nascimento de sua primeira filha. Acontece que Andrade é padre da paróquia da Freguesia de Nossa Senhora do Monte, na Ilha da Madeira, e o caso ganhou repercussão nacional. Ele deixou o cargo à disposição, mas até o momento não foi removido das funções.

De acordo com o “Jornal de Notícias”, Andrade comunicou a Dom António Carrilho, bispo de Funchal, que gostaria de continuar à frente da paróquia, mas deixava a decisão em suas mãos. No sábado foram publicadas as nomeações pastorais para 2018, e o nome de Andrade não foi citado. Contudo, em cerimônia na paróquia do Livramento, Carrilho afirmou que “a questão não está encerrada”, frisando que o pároco “deverá assumir as responsabilidades inerentes à situação”.

— O que nós procuramos fazer é um discernimento, que é progressivo e pode ser um pouco lento, mas que é num diálogo franco e aberto entre o sacerdote e o bispo e o bispo e o sacerdote — disse o bispo.

No domingo, Giselo Andrade celebrou missa na igreja do Monte e aproveitou para agradecer o apoio dos fiéis “nesta fase difícil” e a “ajuda e o acolhimento” dos paroquianos.

— Quero agradecer as vossas orações, a vossa amizade, o vosso acolhimento, a vossa ajuda, a vossa proximidade neste momento difícil para mim — afirmou o padre, segundo o “Diário de Notícias”.

IGREJA ‘NÃO PODE ADMITIR VIDA DUPLA’

Em comunicado também divulgado no domingo, a Diocese de Funchal informou que está acompanhando a situação do pároco do Monte, respeitando “a delicadeza do caso, a dignidade das pessoas e as consequências que as mesmas têm na própria paróquia e nas restantes comunidades cristãs”. A Diocese sublinha que “foi com tristeza que recebeu as recentes notícias sobre a vida de um sacerdote”, o que considera “um contratestemunho daquela que deve ser a vida de qualquer sacerdote”.

“A Igreja é um espaço de misericórdia e Deus perdoa tudo, mas não pode admitir uma vida dupla”, ressaltou a Diocese, informando que “caberá ao próprio sacerdote discernir em diálogo com o bispo se pretende continuar a exercer o ministério sacerdotal segundo as exigências e normas da Igreja ou se pretende abraçar outra vocação”.

Na avaliação do teólogo Frei Fernando Ventura, o direito canônico não impõe ordem de expulsão ou redução de status a quem violar o voto de celibato, e tudo deve ser resolvido pelo diálogo e bom senso, considerando “o superior interesse da criança”. Esse é o mesmo entendimento do padre Anselmo Borges:

— É necessário que um padre assuma as suas responsabilidades como pai, agora se isso implica automaticamente o afastamento do sacerdócio, não é claro — afirmou, em entrevista ao “Diário de Notícias”.

Mas a questão é controversa e abre espaço para interpretações. Para a teóloga Teresa Toldy, pelo “direito canônico atual, o padre será suspenso”, acrescentando que a manutenção de Andrade à frente da paróquia do Monte nestas circunstâncias “teria de ser ordenada pelo Vaticano”.

— Um bispo de uma Diocese pode dialogar com o padre em questão, mas não tem autoridade para dizer que ele pode continuar à frente de uma paróquia, tendo assumido uma família — analisou Toldy.

Retirado de O Globo