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As igrejas católicas alemãs ontem estavam vazias. E não tanto por causa das temperaturas amenas e de um dia ensolarado que poderia ter levado muitos fiéis a um passeio no campo, em vez de seguir as tradicionais liturgias dominicais. Em vez disso, as igrejas do país foram esvaziadas justamente por uma greve. Aquela convocada por um grande grupo de mulheres de fé católica chamado “Maria 2.0“.

A reportagem é de Walter Rauhein, publicada por La Stampa, 13-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Pela duração de uma semana, elas não mais colocarão o pé em nenhuma igreja, boicotarão todos os serviços religiosos e nem mesmo prestarão serviço dentro das paróquias e instituições clericais. Um sinal de protesto contra o escândalo da desigualdade entre os sexos que ainda impera nas comunidades e hierarquias do Estado pontifício e que agora levou às barricadas mulheres como Andrea Voß-Frick.

A psicóloga de 48 anos trabalha como voluntária na paróquia de Heilig Kreuz de Münster, na católica região da Alemanha Ocidental da Renânia-Westfália, e é responsável, entre outras coisas, por cursos de catequese, iniciativas para jovens e para idosos, assistência social, acolhimento de refugiados e atividades culturais de sua paróquia. “Sem nossa contribuição, a igreja deixaria de existir”, explica Andrea Voß-Frick. “Mas para os bispos, cardeais e para a Conferência Episcopal é como se nós não existíssemos.”

Participação em massa

À greve das mulheres do “Maria 2.0” aderiram centenas de paróquias na AlemanhaÁustria e Suíça e as 650.000 fiéis registradas na Comunidade alemã de mulheres católicas (KfD) e na Federação das Mulheres Cristãs(KDFB). Seus pedidos vão muito além de um simples reconhecimento das atividades realizadas dentro da igreja. Em uma petição on-line enviada inclusive ao Papa, as mulheres reivindicam o direito de voto na Conferência Episcopal Alemã e a possibilidade de ter acesso a todas as funções religiosas, inclusive ao sacerdócio.

Uma verdadeira revolta rosa contra o regime patriarcal que ainda existe no hemisfério católico e que não deixou de provocar fortes reações dentro das hierarquias eclesiásticas. O influente Comitê Central dos católicos alemães até pediu a excomunhão das fiéis que assinaram a petição definindo sua greve como um “ataque aos valores da igreja“. No entanto, também não faltaram mensagens de solidariedade às fiéis em greve.

O bispo de Osnabrück Franz-Josef Bodedefiniu como “legítimas” as reivindicações das mulheres, autorizando as missas ao ar livre organizadas por dezenas de sacerdotes renanos fora de suas igrejas para permitir que as fiéis em greve pudessem participar das liturgias.

Um bispo e vários clérigos com responsabilidades importantes na Alemanha expressaram seu apoio à “greve contra a Igreja” convocada por um grupo de católicas após o “não” do Papa Francisco à ordenação de diaconisas.

Na coletiva de imprensa que concedeu a bordo do avião no qual regressou da Macedônia do Norte para Roma, o Pontífice explicou que, depois do trabalho da comissão que criou para o estudo da possibilidade de ordenar diaconisas na Igreja, o tema “até este momento não vai”.

As palavras do Santo Padre geraram a greve de mulheres que se autodenomina “Mary 2.0” e que acontece de 11 a 18 de maio. Nela, os participantes celebrarão seus próprios ofícios litúrgicos em vez de irem à missa.

Da mesma forma, as organizadoras divulgaram uma carta aberta dirigida ao Papa, na qual destacam que “os homens da Igreja só toleram uma mulher no meio deles: Maria”. Também exigem a aprovação da ordenação de mulheres e que “Maria desça de seu pedestal e esteja no meio de nós, como uma irmã que olha em nossa direção”.

No site que criaram para divulgar a greve, há imagens de Nossa Senhora e de outras mulheres com a boca coberta por uma fita adesiva.

O site oficial da Igreja Católica na Alemanha fez uma ampla cobertura da greve, promovendo o desejo dos organizadores de divulga-la para outros países. Também informou sobre o apoio de Dom Franz-Joseph Bode, Bispo de Osnabrück e presidente da comissão de mulheres do episcopado alemão.

Dom Bode lamentou que as manifestantes não participem da Missa, mas em suas declarações à agência EPD, disse que reconhece a impaciência “de muitas mulheres na Igreja Católica” e que vê como seus sentimentos “são feridos profundamente” por não serem devidamente reconhecidas pela sua contribuição.

Na carta aberta dirigida ao Santo Padre, as organizadoras também fazem uma série de exigências, como a abolição do “celibato obrigatório”, a “atualização” do ensinamento moral da Igreja; e a ordenação de mulheres “em todos os ministérios”.

Por outro lado, o Vigário Geral da Arquidiocese de Paderborn, Mons. Alfons Hardt, elogiou a greve das mulheres “preocupadas com a sustentabilidade de sua Igreja”. O sacerdote também disse que “é uma motivação que valorizo ​​muito”, embora possa criar certas divisões.

Apesar de reconhecer que São João Paulo II resolveu a questão da impossibilidade de ordenar sacerdotisas na Igreja, o sacerdote comentou que “por outro lado, não temos uma resposta final. Pelo menos na Alemanha, este assunto é debatido muito abertamente, especialmente entre os teólogos. É claro que é preciso de um consenso global e eclesial para isso e que atualmente este não é o caso”.

Em 2 de maio, o Bispo de Eseen e diretor da agência Adveniat, que financia um grande número de projetos de ajuda na América Latina, Dom Franz-Josef Overbeck, comentou que “nada será como antes”, após a conclusão do Sínodo da Amazônia que acontecerá em outubro no Vaticano.

Em declarações à imprensa, o Prelado disse que no Sínodo, o papel das mulheres na Igreja, a moral sexual, o papel do sacerdócio e toda a estrutura hierárquica eclesiástica serão reconsiderados.

A grave crise da Igreja na Alemanha

Em março deste ano, o Arcebispo de Munique e Freising, Cardeal Reinhard Marx anunciou que a Igreja Católica na Alemanha está embarcando em um “processo sinodal” para abordar e debater o que denomina como sendo as três questões principais decorrentes da crise dos abusos sexuais: celibato sacerdotal, ensinamentos da Igreja sobre moral sexual e redução do poder clerical.

O “processo sinodal” envolverá consultas com o “Comitê Central dos Católicos Alemães”, uma organização leiga que coopera estreitamente com a conferência episcopal e recorrerá a especialistas externos.

Em fevereiro deste ano, um grupo de nove católicos, entre os quais três sacerdotes e dois membros do Comitê, escreveu uma carta aberta ao Cardeal Marx pedindo-lhe que mude a moral sexual da Igreja.

Da mesma forma, em 2018, a Conferência Episcopal Alemã elaborou um documento que propunha algumas condições para dar a comunhão eucarística aos protestantes casados ​​com católicos.

Sete bispos bávaros, entre os quais o Arcebispo de Colônia, Cardeal Rainer Maria Woelki, se opuseram à proposta. Em junho daquele ano, na festa de Corpus Christi, o Cardeal afirmou que “a Igreja se erige a partir da Eucaristia. Portanto, quem quer que receba o Corpo do Senhor e tenha dito previamente, ao final da Oração Eucarística, seu ‘Amém’ afirmativo, diz ‘sim e Amém’ à que Jesus está verdadeiramente presente, e não apenas em sentido figurado”.

Os números da crise

“As últimas cifras da Conferência Episcopal Alemã pintam um quadro negativo: mais de 160.000 fiéis deixaram a Igreja Católica em 2016, enquanto apenas 2.547 pessoas se converteram (a maioria do luteranismo)”, escreveu em 2017 Christoph Wimmer, editor da CNA Deutsch, agência em alemão do grupo ACI.

“O número total de sacerdotes na Alemanha em 2016 foi de 13.856, uma queda de 200 comparado com o ano anterior. Matrimônios, crismas e outros sacramentos estão em queda”, assinalou .

Além disso, “o sacramento da Confissão, sobre o qual a Conferência Episcopal não disponibiliza números, desapareceu, para todos os efeitos, de muitas, se não da maioria, das paróquias”, lamentou.

Em 2015, apenas 2,5 milhões de católicos, de um total de 24 milhões, iam à missa aos domingos.